Se eu falar ninguém acredita, então resolvi escrever: encontrei um fio de cabelo branco dentro dO Caminho de Swann. Não lembro a página, mas, o narrador nos comenta, como toda memória é também uma destruição e uma construção, invento e me lembro: página 71, a página do insight principal. Viro a página e cai, sobre minha mesa, um cabelo branco liso. Essa é uma grande viagem, mas hoje quis ir além. Pensar nessa chapação não basta e sinto que, como Marcel, devo também “tratar de ver mais claro em meu encantamento”. Fiquei tão entusiasmado, como ficamos em momentos como esse, em que, molhando nosso biscoito Maizena em nosso copo de leite ou "Nescau” (ou nosso pão com manteiga molhado na xícara de um quente e doce café), somos surpreendidos por algo que nos atropela mentalmente e nem poderíamos ver chegar, esse train of thought, esse VLT do Metrofor das ideias que vai da Parangaba à Combray. A memória aqui, estranhamente, não é a minha, mas a de outra pessoa, que deixou cair um fio - não o de Ariadne, mas acho que da trama de sua vida - no livro que era seu e por quantas mãos deve ter passado até chegar à mim. Que fazia, no ato? lia Proust pela primeira, segunda vez? Folheou uma última vez antes de vender e deixou cair o próprio tempo objetificado em um biomarcador de páginas?
“É claro que a verdade que eu procuro não está nela, mas em mim”. Fissurado como sou nesse grande romance, encontrar esse esquecido objeto logo no início da Busca é um certo êxtase, na verdade, quer dizer, uma pessoa atestou a tarefa do escritor, lendo o narrador se transformar em escritor, num loop como no filme Quero Ser John Malkovich. Será que é viagem minha? E é interessante lembrar desse filme porque, até onde li, mas sentindo que minhas fontes de pesquisa são sites de fofoca, os personagens de Proust são baseados em traços da sua própria personalidade, e então estamos nós ali entrando naquele espaço literário, na pele daqueles personagens imaginando, projetando, percebendo como eles, se identificando, até mesmo somatizando coisas, autopsicopatologizando com eles - livros intensos são assim - e seguimos a leitura entrando nesse buraco (que nos levaria para a cabeça de John Malkovich) para nos tornar Swann e entender o motivo de suas escolhas e as escolhas do seus motifs; ou na cabeça moralista de Françoise, vociferando contra uns e outros inadequado perante suas próprias leis e terminando com uma espécie de “mas quem somos nós para julgar”; ou bisbilhotando junto a Marcel, num famoso sem querer querendo, uma espécie de nude da alma, a privacidade mais secreta de duas jovens lésbicas em um tempo extremamente proibitivo, entendendo que o mundo é feito mais das coisas invisíveis do que das visíveis. Além disso, quantos dias estou eu como Tia Léonie, sem querer nem me levantar da cama e falando sozinho, esquecendo de dormir e dando conta da vida dos outros?
Também meu cabelo esbranquiça a cada palavra que leio ou escrevo, e mais do que “devo escrever?” me pergunto se talvez eu esteja na verdade na busca perdida de ser e ver o mundo como Proust o via - para além dos jogos de palavras e das metáforas que pintam quadros de objetos e imagens a todo momento - mas nessa percepção e nessa vontade de partir dos fenômenos para a escrita, sentir e escrever, quem sabe elaborar, mas não só sentir e sentir. E é com essa autopercepção sensitiva sobre ler e escrever que este se torna, então, minha primeira nota de um suposto diário de releitura de Proust. Não houve um de leitura, apesar de estarem todas riscadas e cheias de adesivos as edições que li e que estão guardadas, como ficaram também guardados meus pitacos da época, agora livres, ainda que nada além de pitacos.
Obs.: Amarrei o fio de cabelo na prateleira de meus livros, acima do computador, em meu quarto, em homenagem aos fios soltos da minha vida, que, na minha cabeça, estão sempre aguardando por um nó - “i’m not superticious… just a little ticious.”
Pedro Biel
